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Secção de Natação
Entrevista a Paulo Trindade
2007-04-18

Paulo Trindade, antigo nadador e Dragão de Ouro do F.C.Porto, participou em três Jogos Olímpicos, três Campeonatos do Mundo e dois Campeonatos da Europa, só para referir as competições mais importantes (ver aqui o curriculum desportivo). É um dos atletas do Clube com maior curriculum desportivo.
Esta série de entrevistas não poderia começar melhor, dando a conhecer às novas gerações e aos mais distraídos este grande atleta.

Paulo Trindade, actualmente com 40 anos é Engenheiro Civil (ver aqui curriculum profissional) e ainda dá umas braçadas.

P(fcpnatacao): Fale-nos de si: onde nasceu, idade, habilitações e a sua actividade profissional actual.
P.T.: Nasci no Porto, Santo Ildefonso, no dia 22Jan'67. Passei a minha juventude no centro do Porto. Efectuei os meus estudos em várias escolas do Porto, desde a pré-primária na Praça Marquês de Pombal, passando por Augusto Gil, Alexandre Herculano e Infante D. Henrique. Fiz os meus estudos superiores em Engenharia Civil no ISEP (Inst. Sup de Eng.ª Porto) e na UNL (University of Nebraska in Lincoln, EUA).
Desde que comecei até agora, tenho trabalhado como Eng.º Civil em diferentes áreas, como Orçamentação e Direcção de Obra numa grande empresa de construção, passando pela Coordenação e Gestão de Projectos e agora como Director de Projectos.

P(fcpnatacao):Com que idade e onde começou a praticar natação?
P.T.: Comecei a praticar natação aos 4 anos de idade, nas escolas do F.C.Porto na piscina das Antas. Em 1975 entrei para a competição, terminando a minha carreira de alta competição aos 29 anos (1996) nos Jogos Olímpicos de Atlanta. Em 2000 entrei para a competição de Masters, onde tenho competido consoante a minha disponibilidade.

 

P(fcpnatacao): Lembra-se da primeira sua primeira prova?
P.T.
: Lembro-me das minhas primeiras provas na Piscina das Antas onde comecei por ganhar as provas de 25m Mariposa. Desde aí até Atlanta passei por varias fases onde conquistei vários títulos individuais e colectivos.

P(fcpnatacao): Desportivamente, qual o seu maior feito?
P.T.
: Os meus maiores feitos foram sem dúvida os Jogos Olímpicos, com um sabor muito especial nos Campeonatos do Mundo de '91 em Perth, onde alcancei uma final com Recorde Nacional Absoluto e Recorde Ibérico e os Campeonatos da CEE em Eindhoven onde a equipa do F.C.PORTO masculina alcançou um honroso 6º lugar.

P(fcpnatacao): O que lhe deu mais satisfação enquanto nadador?
P.T.
: Os anos de maior satisfação foram os últimos anos de competição onde alcancei a maturidade de desportista sentindo o prazer de nadar.
P(fcpnatacao): E momentos maus? Também os teve?
P.T.
: Como todos os caminhos percorridos, existem os bons e maus momentos. Foi natural haver momentos menos bons, como lesões e pressões psicológicas. Estes momentos acabam por ser desafios que sempre tentei ultrapassar, lutando. Constituíram uma experiência de vida, no fundo uma preparação para a vida.

P(fcpnatacao): Como eram na altura as condições de treino?
P.T.
: Os tempos vão evoluindo e assim se espera que tudo o resto, quer sejam as condições de
treino, quer sejam outros pontos /aspectos. Penso que para dizer se as condições de treino eram boas ou más tenho que introduzir um factor de comparação. Se nos anos 50 se treinava no rio e sem água aquecida; nos anos 70, já tínhamos piscina aquecida. No entanto, se compararmos as mesmas estruturas, na mesma altura, com outros países europeus digamos que estávamos um pouco aquém. Por isso, poderei dizer que quando comecei a nadar as condições de treino estavam na média.
O F.C.Porto, na altura, tinha as melhores condições do Porto e do país. Com o passar dos anos, foi desenvolvendo as suas infra-estruturas, embora faltasse sempre a famigerada Piscina Olímpica.
P(fcpnatacao): Como conseguia conciliar o treino de alta competição com os estudos?
P.T.
: A conciliação entre treinos e estudos, nem sempre foi fácil, porém houve sempre maneira contornar a situação. Ora, se treinava às 6h da manhã ou se treinava às 8h, já que o treino do final da tarde era sagrado 18h00 - 20h30.
Para conseguir essa harmonia, tive que contar com o apoio da minha família e com a minha capacidade de autodisciplina. A gestão eficaz do tempo foi um factor crucial.
P(fcpnatacao): Quais eram as suas provas preferidas?
P.T.
: As minhas provas favoritas foram sempre as de "sprint" independentemente do estilo a nadar. "Crawl" e mariposa foram os estilos que mais aperfeiçoei.
P(fcpnatacao): Quem eram os seus principais rivais em Portugal?
P.T.
: Todos aqueles que nadavam rápido e se dedicavam um pouco a provas de "sprint", como os 50 e 100m, acabavam por ser meus rivais. De momento, lembro-me de nomes como o de Alexandre Yocochi, João Santos, Sérgio Esteves e o Nuno Laurentino.
P(fcpnatacao): Conte-nos uma história, uma situação engraçada em que, de alguma forma, se tenha envolvido ao longo da sua carreira como nadador.
P.T.
: Houve várias histórias, todavia talvez a mais emblemática tenha sido a de 22 de Junho de 1988, quando baixei de 24 segundos, nos 50 livres, tendo conseguido bater o recorde nacional absoluto e obter os mínimos para os Jogos Olímpicos de Seoul. Foi numa altura extenuante, dado que no dia anterior tinha acabado a época de frequências da Faculdade. Nas duas últimas semanas, não tinha treinado muito e, por isso, só pedi para ser inscrito nos 50m livres nos Campeonatos Regionais em Campanhã. Nesse mesmo dia, antes de me deslocar para as provas fiz um acordo para vender a minha mota de 125cc. As motas sempre foram uma paixão, mas naquela altura queria-a vender para comprar um carro. Na ida para a piscina, na Praça das Flores, um carro executou uma manobra súbita para a esquerda e bateu-me num punho da mota desequilibrando-me. Aos "Ss" lá consegui manter o equilíbrio e não cair. Parei e o condutor do carro veio em meu auxílio, pedindo-me desculpa. Como estava tudo bem, segui para a piscina, mal sabendo eu que umas horas mais tarde toda a minha vida iria mudar.
P(fcpnatacao): Continua a acompanhar a natação? Quem é o melhor nadador Português da actualidade? 
P.T.
: Acompanho com regularidade, ainda que não esteja totalmente dentro da
actualidade. Não posso nomear o melhor ou os melhores (não me cabe a mim esse papel), no entanto, deixo um grande elogio, em jeito de homenagem, a todos aqueles nadadores que efectuaram as melhores marcas de Portugal desde que este país foi fundado, ou seja, os Recordistas Nacionais.
P(fcpnatacao): Para si, quem é o melhor nadador mundial de todos os tempos?
P.T.
: Se o parâmetro a ter em conta, forem pelas medalhas Olímpicas, claro que direi que foi o Mark Spitz. Contudo, acho que não existe só um, mas sim, vários. Deixo aqui alguns nomes para quem quiser pesquisar como Tamas Darny, Vladimir Salnikov, Alexander Popov, Inge Bruijn, Janet Evans, Matt Biondi, Ian Thorpe, Michael Phelps.
P(fcpnatacao): Como vê o futuro da natação no nosso País e particularmente no F.C. Porto?
P.T.
: A Natação em Portugal tem lugar para desenvolver e evoluir, dependendo em parte das Politicas Governativas, da FPN e também dos respectivos Clubes.
Pode parecer uma frase feita, mas a haver vários objectivos bem planeados e definidos por todos estes intervenientes, o resultado só poderá ser positivo. Na minha perspectiva há um todo a desenvolver. Existe a massa principal que são os atletas já com resultados comprovados, mas isso por si só não é suficiente.
O futuro atleta tem que ser preparado, incentivado, assim como o actual. A não existência de tais factores tem como consequência a desmotivação e o abandono.
No F.C.PORTO a falta de uma estrutura à medida do sec XXI, condiciona esse mesmo desenvolvimento. Esperemos por melhores condições.
P(fcpnatacao): Como se sentiu ao receber o Dragão de Ouro?
P.T.
: Competindo com todos os atletas amadores nas mais diversas modalidades do Clube e receber tão prestigiante Troféu, foi um orgulho.
Foram longos anos a treinar vestindo por completo a camisola do clube e dignificando o mesmo com os resultados conseguidos, obtendo esse reconhecimento foi uma enorme satisfação.
P(fcpnatacao): Aconselharia um filho seu a praticar natação?
P.T.
: Antes de mais aconselharia a praticar desporto. A educação de um filho meu passaria pela prática de desporto. Desporto é Educação! Desporto é Vida! Desporto é Saúde! Querendo ele praticar Natação ou qualquer outro desporto teria o meu total apoio.

Agora uma série de perguntas colocadas pelos visitantes do nosso site:

P (BebaÁgua): Sente falta das grandes competições internacionais? Como eram vividos esses momentos?
P.T.
: Confesso que sim. As competições Internacionais foram momentos únicos, já que eram patamares, objectivos, metas a atingir.
Toda aquela envolvente de nadadores de varias nacionalidades, público, e nalguns sítios a própria cidade também, para além da pressão sentida eram momentos únicos. Sinto falta, sem dúvida.

P (Zé Pedro, antigo colega de trabalho): Gostaria de saber qual foi a piscina onde lhe deu maior prazer nadar em provas oficiais ? E porquê ?
P.T.
: Não houve uma só piscina talismã, existiram várias. As piscinas que mais gostei de nadar estão sempre associadas a bons resultados. Nas chamadas piscinas “rápidas” era “obrigatório” fazer bons resultados. Em Portugal, posso falar da Piscina do Algés e de Felgueiras. A nível Internacional a piscina de Sheffield (Inglaterra), e a de Perth (Austrália).

P (André Coelho): Qual o seu período de abstinência sexual, antes de iniciar cada prova?
P.T.
: Pergunta interessante. Com a experiência e alguma leitura sobre energias acabei por aprender o melhor método. Posso dizer que não havia um período exacto. O certo é que para a minha pessoa e sendo Latino, tendo relações sexuais pouco antes das provas, afectava o meu rendimento desportivo, por isso e nalguns momentos tive que optar (não sendo esta opção vinculativa e estritamente rigorosa). O período de abstinência sexual rondava os 7 dias antes da competição.

E por fim:

 
P(fcpnatacao): Tentar é mesmo melhor do que conseguir?
P.T.
: Sem dúvida! Permitam-me esclarecer esta minha frase. Se não tentar lutar por algo que deseje, não conseguirei atingir esse objectivo. Tentar para mim é arriscar, fazer, agir, executar no seu máximo, ou seja a 100% ou muito perto desse valor, para que não restem “ses”. Daí que se eu tentar, der o meu máximo, mas não conseguir, poderei sempre ter a satisfação da luta, da alegria da competição que travei para atingir o meu objectivo. E dizer, eu estive lá, eu tentei!
Como para se Conseguir tem que se Tentar – Tentar é melhor que conseguir!
 
 
 

Paulo Trindade em 2007
       
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